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O senador José Agripino Maia (DEM) acredita que a campanha de Micarla de Sousa (PV) a prefeita de Natal ‘‘embalou’’ e está conquistando a simpatia da população. Nesta entrevista, em que o senador se coloca na condição de um dos principais aliados da candidata, José Agripino reage ao que classifica como tentativa de transferir o debate eleitoral para o plano federal, defendendo que se o presidente Lula vier a Natal para subir no palanque da deputada Fátima Bezerra (PT) terá que ter cuidado para não prejudicar sua relação com partidos que estão na base do governo federal. ‘‘Se Lula vem, ele tem que ter muito cuidado para não ferir correligionários como PV, PMN, PTB, PP e PR, que dão suporte político a ele’’, declarou. José Agripino comentou ainda o cenário para as eleições de 2010 e o indiciamento de ex-integrantes do governo do estado e do filho da governadora Wilma de Faria (PSB), Lauro Maia, na Operação Hígia.
O Poti - Como o senhor avalia a campanha de Micarla de Sousa (PV), passado este primeiro mês?
José Agripino - É uma campanha movida a apelo popular forte, com fortíssima empatia popular. Eu tenho experiência com campanha política em Natal, fiz muitas. Eu sei quando uma campanha está embalada, quando as pessoas estão sintonizadas, quando elas estão apenas atentas ou quando estão engajadas. Nesse momento as pessoas estão já parte engajadas e parte atentas na intenção do engajamento. E há uma empatia muito grande, uma simpatia estabelecida entre o eleitorado e Micarla. Parte desse processo de simpatia já é voto cristalizado, parte é uma intenção de voto muito forte. A campanha de Micarla está aquecida e sintonizada.
O Democratas vem participando ativamente das mobilizações…
Sim, de todas. Em todas o partido está presente. Como o PMN do deputado Robinson Faria, tem participado. Claro que o vice, Paulinho Freire (PP) está presente em todas e muito em breve Micarla pretende contar com a participação do deputado Ezequiel de Souza, do PTB e certamente do deputado João Maia, do PR, que é uma peça muito importante na campanha e vai participar da campanha de rua. Do Democratas, Betinho (Rosado, deputado federal) já participou, o deputado Felipe Maia tem participado com freqüência e eu e Rosalba com a freqüência que nos é possível.
Como o senhor avalia as críticas de que o prefeito Carlos Eduardo tem feito à atuação de Micarla como parlamentar?
A polêmica tem que ser estabelecida é entre candidatos. Micarla foi a vice dos sonhos de Carlos Eduardo. Natal se lembra muito bem da opção feita por Carlos Eduardo, naquela época, entre o Democratas e Micarla. Então Micarla era ótima naquela época e agora não é uma deputada eficiente? O pecado na crítica, no confronto, é de origem. Depois não há porque Micarla ficar digladiando com o prefeito porque ela não está confrontando com ele, mas com os demais candidatos a prefeito. O que ele quer, na verdade, é desviar o eixo de discussão que é o que interessa à cidade, a discussão entre candidatos. Não se está discutindo a administração de Carlos Eduardo. Não é o julgamento de Carlos Eduardo, diferente do julgamento que ele teve quando a escolheu para vice, que vai modificar a orientação do eleitor. Foi uma tentativa ineficaz de desviar o foco do debate, que tem que ser entre candidatos, com propostas.
A aliança que existe hoje em torno da candidatura de Micarla de Sousa foi feita com vistas a 2010?
Não, é uma aliança feita por afinidades. A aliança foi construída por ela, Micarla. Absolutamente desejada e consentida por mim, presidente do Democratas. Por que? Porque quem é hoje o presidente do PTB? É o deputado Ezequielzinho. Quem é a minha aliança em Currais Novos, principal base de Ezequiel? É com ele. A irmã dele é candidata a vice. Com quem é o Democratas está monoliticamente alinhado no Agreste? Como o deputado Robinson Faria. Com quem é o Democratas está aliado no Seridó? Com o deputado João Maia, de ponta a ponta. As afinidades conduziram essa aliança, para que ela fosse sem imposição, mas feita naturalmente. Minha aliança com o PV de Micarla também foi sem traumas. Por isso que a campanha está embalada, porque não há desconfiança entre nós. Há uma somação de esforços por gravidade. É uma aliança por afinidades que foi por mim desejada, consentida e estimulada.
A senadora Rosalba Ciarlini diverge do senhor nos apoios a candidatos a prefeito de várias cidades do interior. Por que isso ocorre?
Porque ela tem um pensamento que não posso condenar de ser grata a quem a ajudou a eleger-se senadora. Em Nova Cruz, por exemplo, o nosso partido fez aliança com o PSB e indicou o vice. Mas lá ela foi apoiada pelo PMDB. Ela quer retribuir o apoio que recebeu agora. Eu não tenho como recriminar. Mas eu tenho que seguir a orientação do partido que presido. Nisso aí há divergência de profundidade na minha relação com Rosalba? Não. Eu gostaria que ela estivesse conosco na unanimidade dos municípios. No mesmo palanque. Estamos perto disso, mas temos algumas divergências em alguns palanques, o que não chega, de forma nenhuma, a macular nossa relação.
A senadora Rosalba tem cumprido uma agenda intensa no interior do estado e agora participa ativamente na campanha de Natal. Ela está cumprindo uma agenda de candidata ao governo do estado?
Isso aí não sou eu a pessoa adequada para responder. Ela é uma pessoa muito movimentada. Que tem muito prestígio pelo estado, não tenha dúvida. Agora, essa movimentação dela, que é uma obrigação de qualquer político… Ela não se oferece, é convidada.
Além da senadora Rosalba, que é citada como possível pré-candidata a governadora, há na aliança as pré-candidaturas dos deputados Robinson Faria e João Maia. Como deverá ser a escolha da candidatura do grupo?
Quem vai comandar o processo de 2010 é a racionalidade. Eu duvido que Robinson, João Maia, Rosalba ou qualquer um do nosso sistema deseje ser candidato a algum posto para o qual as pesquisas não apontem perspectiva de vitória. Duvido. Então, o que vai comandar as relações entre essas três ou mais lideranças que temos no sistema? A racionalidade, a perspectiva de vitória. E há uma compreensão. Se Rosalba, João e Robinson podem ser entendidos como pré-candidatos a governador, todos três têm o sentimento de que será candidato a governador aquele que tiver as melhores condições dentro da aliança de formar uma perspectiva de vitória. O que desejo é que esse grupo que está disputando a eleição de Natal e que vai ganhar a eleição junto em muitos municípios esteja junto em 2010. Esse é o meu desejo.
Existe a expectativa na coligação em torno da candidatura de Fátima Bezerra (PT) de que o presidente Lula virá a Natal agora em agosto para pedir votos para a candidata. O senhor acredita na vinda de Lula? Que peso a presença dele pode significar na disputa municipal?
Eu não sou a pessoa mais indicada para dizer se Lula vem ou não. O que preciso esclarecer é o seguinte: o estado todo sabe que eu sou um dos líderes da oposição no plano nacional, e todos sabem que eu apóio Micarla. Agora isso não coloca Micarla como uma candidata de confronto ao governo. Até por uma razão simplíssima: qual é o partido dela? O PV. Quem é o vice dela? Paulinho Freire, do PP. O que isso significa? João Maia apóia ela, o PR indicou o ministro dos Transportes. Será que João Maia vai entrar em confronto com o governo do qual ele participa? Será que Paulinho Freire não vai ter chaves para abrir portas no Ministério das Cidades, que é ocupado pelo PP no governo federal? Então não se entenda o meu apoio a Micarla como ela sendo uma candidata de confronto ao governo, nem que isso venha a dizer que Lula venha a Natal combater a candidatura de confronto ao governo, que não é. É uma candidatura apoiada por partidos da base do governo e que detém ministérios no governo. E que ocupam, inclusive, a vice-prefeitura. Se Lula vem, ele tem que ter muito cuidado para não ferir correligionários como o PV, PMN, PTB, PP e PR, que na Câmara dos Deputados lhe dão suporte político.
O acordo político em torno da deputada Fátima Bezerra foi fechado sob o argumento de que unia os partidos da base do presidente Lula. Como o senhor avalia esse argumento? Há uma tentativa de federalizar a eleição?
Federalizar é uma tentativa inútil. Até porque o eleitor sabe que vai votar em candidato a prefeito. Lula não é candidato a prefeito de Natal, nem Carlos Eduardo, nem Wilma. Os candidatos são os que estão aí. A aliança que foi feita, e minha percepção é pelo que tenho ouvido na rua, foi muito mal aceita porque Wilma acabou de disputar uma eleição com Garibaldi. O eleitor do PMDB não tem hábito de votar em candidato do PT. Nem o eleitor do PSB tem hábito de votar no PT. Fizeram uma aliança em benefício deles, na tentativa de descolar o segundo voto, que tenho com Garibaldi e tenho com Wilma. Fizeram uma aliança de pessoas que acabaram de disputar uma eleição. E o eleitor tem ainda muito presentes as divergências e as simpatias, e não vai abrir mão nem das divergências, nem das simpatias. E muito menos para votar uma pessoa em quem eles não têm o hábito de votar. O acordão que foi feito para beneficiar os dois candidatos ao Senado produziu em Natal um mal resultado porque não dobrou resistências nem superou preferências. E produziu uma candidatura que tem uma rejeição forte, que ocorre pelo fato dela ser uma candidata decorrente de um acordão não aceito pelo eleitor e por ser a intérprete do voto de dois partidos que não têm o hábito de votar no PT.
Na última pesquisa publicada n’O Poti, para as eleições de 2010, o senhor aparece com mais intenções de voto do que a governadora Wilma de Faria (PSB). A que o senhor credita esse resultado?
Primeiro de tudo, essas pesquisas para senador, governador, são meras avaliações muito distantes do pleito. Claro que para mim é confortador, lisonjeiro, eu estar na posição que estou em Natal. Agora isso não significa para mim nenhum favoritismo nem nenhuma posição privilegiada, até porque estamos muito longe. Mas significa sim que o eleitor está valorizando muito a coerência política e está acompanhando a minha atuação como parlamentar e como líder de oposição. Isso tenho ouvido muito na rua, a coerência de atitudes, fazer aliança com quem tenho afinidades, não precisar justificar minhas atitudes e a linha de oposição. As pessoas percebem que minha linha de oposição é consciente, racional, objetiva e tem a clara intenção de proteger a sociedade do mal-feito. Por isso tudo é que em Natal está havendo, suponho, este crescimento.
Na última quarta-feira houve o indiciamento de ex-integrantes do governo estadual e do filho da governadora Wilma de Faria, Lauro Maia, por envolvimento na Operação Hígia. Isto compromete o governo?
É um fato que lamento muito. É um fato singular da vida pública do Rio Grande do Norte e que está mostrando claramente conseqüências políticas.
Mas o indiciamento do filho da governadora e de ex-integrantes da administração compromete o governo?
O que vai acontecer agora é a instauração de um processo. Se o MP acolhe a denúncia feita pela Polícia Federal, há um indiciamento e instalação de um processo. E aí o processo é que vai revelar a procedência ou não das acusações. Em se confirmando, é claro que comprometerá. Em se confirmando. O que não se pode é admitir que os contratos denunciados e sob suspeita continuem vigorando. Enquanto os processos instaurados não esclarecerem os fatos denunciados o governo tem a obrigação de suspender estes contratos. O que até agora não fez.
A suspeita já vem atingindo o governo?
Eu não me atreveria a dizer que sim nem que não. Eu quero até dizer que lamento muito este fato ter acontecido.
Como o senhor vê o indiciamento de mais da metade dos vereadores da Câmara Municipal de Natal por corrupção, na Operação Impacto?
Vejo com preocupação. Mas da mesma forma, o processo é que vai esclarecer os fatos. Eu me reservo muito em não fazer declarações que signifiquem um pré-julgamento meu com relação a fatos que estão, primeiro de tudo, já objeto de um relatório da Polícia Federal, segundo, já entregues ao Ministério Público. Eu aguardo para manifestar-me quando os fatos estiverem mais claros.
A Operação Impacto vai repercutir nas eleições em Natal?
Provavelmente após concluídos os processos.
Mas não serão, provavelmente, concluídos a tempo. No caso do mensalão, por exemplo, muitos dos envolvidos não foram reeleitos antes dos processos transitarem em julgado. Pode ocorrer o mesmo na eleição em Natal?
Não se pode atropelar o estado democrático de Direito. Ou você tem o estado de Direito e os trâmites são obedecidos, você atropela a análise jurídica dos fatos. Eu acho que, se o tempo não vai ser suficiente para o esclarecimento, é lamentável. Mas nós temos que aguardar que os processos se estabeleçam e esclareçam os fatos.
Juliska Azevedo e Flávia Urbano
Da equipe de O Poti |